Política

Megaprojeto de torres volta à carga uma semana depois do novo Plano Diretor de Maceió

Contestado por ambientalistas e críticos depois de audiências públicas, projeto foi apresentado em evento pomposo para empresários da construção civil e políticos

Por Wellington Santos / Tribuna Independente 11/04/2026 08h18 - Atualizado em 11/04/2026 09h02
Megaprojeto de torres volta à carga uma semana depois do novo Plano Diretor de Maceió
Hélio Abreu (ao centro), da Construtora Record, fala no evento onde empresa assumiu Hotel Jatiúca - Foto: Wellington Santos

Uma semana depois de o propalado (e ansiosamente esperado) novo Plano Diretor chegar à Câmara Municipal de Maceió com mais de 20 anos de atraso, eis que um evento pomposo - e emblemático -, apresentou a empresários da nata alagoana da construção civil o megaprojeto alardeado como promessa de modificar o cenário urbanístico localizado na Lagoa da Anta, entre os bairros de Jatiúca e Cruz das Almas.

A apresentação ocorreu na noite de quinta-feira (9) e contou também com representantes da Associação Brasileira da Indústrias de Hotéis (ABIH), políticos, entre outras personalidades.

O empreendimento tem como uma das ‘estrelas’ ainda um conjunto arquitetônico que prevê a implantação de um empreendimento de uso misto, com 130 unidades residenciais distribuídas em cinco torres de 13 andares, totalizando cerca de 15 mil metros quadrados de área construída, além de um novo hotel verticalizado.

O evento marcou também o acordo da Construtora Record com o Grupo Lundgren (dono da Casas Pernambucanas), agora ex-dono do Hotel Jatiúca, que passou, “simbolicamente”, às mãos da gigante da construção civil umas das mais belas paisagens do local da capital alagoana que se constituiu no local por mais de 45 anos.

Assim como o rumoroso caso da Braskem que destruiu cinco bairros atingidos pela mineração da empresa e que desalojou cerca de 60 mil pessoas na cidade, o megaprojeto da Construtora Record que promete modificar a paisagem urbanística entre Jatiúca e Cruz das Almas foi parar no radar do novo Plano Diretor. Em 2025, o megaempreendimento entrou em rota de colisão por ter gerado muitas discussões em Audiências Públicas realizadas na Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) e outra na Câmara Municipal de Maceió prós e contra no que concerne aos impactos ambientais e à mobilidade urbana no entorno do empreendimento milionário para o novo Plano Diretor.

E agora vai caber aos 27 vereadores da Câmara Municipal de Maceió essas discussões que, para alguns analistas, pode até desidratar o novo Plano Diretor que, numa visão geral, está bom e protege as áreas sensíveis da capital alagoana ou as chamadas Zonas de Interesse Ambiental e Paisagístico (ZIAPs) da força econômica que normalmente visam mais ao lucro do que a convivência com a natureza.

Em função dessa polêmica, a Tribuna ouviu alguns atores dessas discussões e traz à baila essas opiniões.

Presente ao evento da apresentação do projeto da Construtora Record, representando justamente os 27 vereadores que terão responsabilidade de discutir e aprovar - ou não - o novo Plano Diretor, o presidente da Câmara de Vereadores de Maceió, Chico Filho (PL), fez suas considerações:

“O plano diretor é fundamental para o desenvolvimento de Maceió. Ele será amplamente debatido na Câmara. Com a contribuição dos colegas vereadores, e também dos setores da sociedade civil organizada, vamos, mais a frente, ter um melhor cenário de como ficará o regramento para construções na região. Até lá qualquer posicionamento pode ser visto como adiantado e prejudicial aos debates”, ponderou Filho.

Outro vereador presente ao evento era Leonardo Dias (PL).

Já o professor e administrador de empresas José Queiroz de Oliveira, 66 anos, que também preside a Associação dos Moradores do Stella Maris, (Astema), que representa mais de 20 mil moradores do Corredor Vera Arruda, encravado no bairro de Jatiúca e no entorno de onde se pretende construir as cinco megatorres de 15 andares na Lagoa da Anta, deixou a ponderação de lado e alertou:

“Se esse empreendimento não levar em conta os impactos ambientais e impactos de vizinhança, esse pedaço de Maceió vai virar uma espécie de Faixa de Gaza, empurrando os moradores para trás e beneficiando somente os endinheirados que vão morar nessas torres”. Queiroz foi o autor desta afirmação em reportagem publicada no dia 29 de março de 2025 na Tribuna, ou seja, um ano e um mês depois.

“Pelo que tomei conhecimento desse empreendimento, eles vão praticamente privatizar a Lagoa (da Anta)”, disse ainda Queiroz, na ocasião.

José Queiroz, da Associação do Corredor Vera Arruda (Foto: Adailson Calheiros)

Considerado independente e um dos críticos desde o início da discussão sobre o Plano Diretor, o vereador Allan Pierre deixa claro que o controle da área da Lagoa da Anta seja público e não privado.

“Quando a gente relaciona isso ao Plano Diretor que chegou à Câmara de Vereadores agora nós vamos poder discutir de forma pública com o interesse público, podemos reaver de fato e de direito a Lagoa da Anta para a população maceioense, para o turismo. Já venho defendendo que ali possa ser um parque urbano, um parque ambiental, um espaço de convívio e que aquilo ali não tenha um controle privado. Mas um cartão postal público sem o esse domínio da iniciativa privada”, disse.

Vereador Allan Pierre (Foto: Adailson Calheiros)

NO NOVO PLANO, LAGOA DA ANTA É

PROTEGIDA POR ESCUDO JURÍDICO

Passado esse tempo de um ano e um mês depois da reportagem, José Queiroz volta a ressaltar à Tribuna que é importante observar que o projeto do novo Plano Diretor, depois de muitos anos atrasado, foi apenas encaminhado à Câmara, para análise, desidratado e descaracterizado. “Então ele pode ser modificado”, alerta.

Ele destaca, por exemplo, que com relação ao Corredor Vera Arruda, no entorno da Lagoa Anta, o Plano no seu artigo 83 – transforma o Corredor em uma Zona de Interesse Ambiental e Paisagístico (Ziap) significa que a Prefeitura colocou um “escudo jurídico” sobre a área. “Já temos o reconhecimento ambiental feito pelo Estado, agora a proposta da Ziap. Mas temos que ficar atento à tramitação na Câmara, para tanto, criamos um grupo de alto nível, com especialista para acompanhar este processo”.

Com relação ao empreendimento a ser construído na área do Hotel Jatiúca, diz ele: “Mantemos a nossa opinião. Os estudos de impactos de vizinhança e outros necessários deverão ser apresentados. Outra preocupação é o seguinte: este empreendimento está adequado ao Plano Diretor que está tramitando na Câmara? Acho que a sua aprovação ou não deve ser à luz do novo Plano Diretor. Seria muito estranho que este projeto não esteja dentro desse parâmetro”, completa.

Queiroz chama atenção ao capítulo no Plano Diretor que se refere à Subseção VI Das Zonas de Interesse Ambiental e Paisagístico (Ziaps), no Art. 85, que são as áreas de especial importância ambiental, em face de sua relevante contribuição para o equilíbrio ecológico com restrição à ocupação, vinculadas à macroestratégia de meio ambiente e paisagem e onde está inserida a área que agora pertence à Construtora Record, a Lagoa da Anta.

“ESTAMOS DENTRO DE TODAS AS EXIGÊNCIAS DO PLANO DIRETOR”, GARANTE EMPRESÁRIO

Hélio Abreu, que junto aos sócios, Caetano Chimenez e Wagner Andrade, participou do evento de apresentação do projeto, garantiu à Tribuna que a Construtora Record atende hoje a praticamente todos as exigências do novo Plano Diretor.

“Esse projeto contempla todos os critérios, todas as premissas que embasaram o novo Plano Diretor, porque contempla uma vasta participação, um vasto percentual de áreas de solo natural e verde e integra o espaço público e a preservação da lagoa, com a reconstrução da mata ciliar e plantas nativas”, disse Abreu.

“Traz uma renovação para a área porque abre a margem da lagoa para o convívio público, coisa que hoje ainda não existe

Interrogado se não teme uma rejeição por parte da maioria dos vereadores em relação ao megaprojeto em função das exigências do novo Plano Diretor, Abreu é enfático: “Não, de forma alguma. A gente entende que a Câmara de Vereadores vai saber perceber o valor social, econômico, ambiental que nós estamos propondo. Estamos propondo uma preservação absoluta da Lagoa da Anta, uma reconstrução da mata em torno da lagoa. O projeto respeita o recuo das construções em relação à margem da lagoa de 30 metros, que é o dobro da premissa exigida pelo Código Municipal, que prevê 15 metros e temos uma preservação de 30 metros no projeto. Então, com certeza que esses argumentos, eles vão convencer, não só a Câmara, como toda a população”, completou o empresário.